4.3.10

citação para reflectir

“Pedir aos beneficiários do RMG* para se comprometerem com um contrato é, na maior parte dos casos pedir o impossível. É exigir dos excluídos estratégias que até as camadas superiores da população são incapazes de cumprir: construir um projecto de vida consistente, ter um plano para a sua carreira” (Tosi, s/d, cit. in Silva, 1998)
* actual RSI
[citação retirada de um texto não publicado de um aluno meu]

E deixo para discussão:
Com o actual problema do emprego (baixa empregabilidade, alto desemprego, precariedade, insegurança, remunerações baixas, etc.), e com a percentagem de trabalhadores em situação de pobreza, qual o papel do trabalho na inclusão social?
Se, enquanto assistentes sociais, sabemos que mesmo trabalhando as pessoas não conseguem sair da situação de pobreza, e se mantêm excluídas de todo um conjunto de direitos, o que nos cabe fazer? O que nos resta?

12 comentários:

José Carlos Veríssimo disse...

Bem!. Nós Assistentes Sociais tb temos que ter a capacidade de conseguir promover projectos de vida na adversidade, e por muito má que seja a actual conjuntura, existem perpectivas teóricas que dizem precisamente que em tempos dificeis tb se constroem oportunidades, e neste sentido temos que preparar os nossos beneficiários para melhores tempos e isso é aproveitarem para desenvolverem a sua formação/qualificação, adquirirem competências pessoais/sociais e outras que podem ser decisivas para o sucesso do seu projecto de vida no futuro.

José Carlos Veríssimo disse...

Desculpem a provocação... Mas na minha opinião existe uma condição básica para ser Assistente Social, é acreditar sempre nas pessoas nas comunidades e na sociedade, ter pensamento positivo e procurar sempre soluções, porque quando se fecha uma porta abre-se sempre outra e se procurarmos bem e formos optimistas iremos mais que não seja encontrar uma janela aberta, e esta mensagem é fundamental passar as pessoas porque se elas não acreditarem em sí e na sociedade nas instituições, nunca vão conseguir acreditar se quer no seu projecto de vida, e por conseguinte estará condenado ao fracasso.

S Guadalupe disse...

Não é provocação nenhuma...

Eu concordo consigo nos meus dias optimistas, mas nesta conjuntura, o que fazer com as nossas competências, se as oportunidades de sucesso estão (quase) barradas?

(deve ser do tempo, mas não consigo estar nada optimista!)

Duarte disse...

O perfil do beneficiário do RSI aponta para qualificações em geral baixas ou muito baixas. É frequente até vermos beneficiários com menos de 30 anos que nem a escolaridade obrigatória têm. Claro que por detrás existem muitas histórias de vida que não permitiram um percurso escolar melhor. Mas então quando essas pessoas chegam ao RSI, se não foram ajudadas antes, terão de ser ajudadas agora. Também é verdade que actualmente há o paradoxo de vermos tantos licenciados desempregados, mas os números dizem que existem ainda mais desempregados com qualificações baixas. Portanto, se em Serviço Social estudamos o empowerment, no RSI há que encaminhar muitos dos beneficiários para respostas educativas/formativas, pois não é admissível que um beneficiário que entre sem a escolaridade obrigatória, ao fim de 2 anos mantenha essa situação. Muitos não têm competências adquiridas ou reconhecidas, e esses têm também de ser encaminhados devidamente. Agora, nada disto é garantia absoluta de emprego, mas temos de lidar com probabilidades e quanto melhores forem as qualificações, maior será a probabilidade de arranjar trabalho e de reforçar a inclusão social. É perigoso se transmitirmos a mensagem de que não vale a pena, pois a alternativa nada fazer, é que não é solução. Portugal tem graves problemas de qualificação da sua mão-de-obra, bem como, de literacia. Logo, as políticas sociais têm de ajudar a atacar este problema. Não cabe, contudo, às políticas sociais, garantir o emprego, pois isso é papel da economia. Só que uma economia sem trabalhadores qualificados, hoje em dia não sobrevive. Quanto à primeira parte do texto que refere a dificuldade dos beneficiários cumprirem um contrato, concordo, mas tal se deve à insuficiência no acompanhamento por parte dos técnicos. Será pelo insuficiente número de técnicos para o excessivo número de casos, ou por alguns aspectos menos adequados de legislação, mas é necessário acompanhar mais os beneficiários. Por último, não podemos esquecer que o RSI não é uma simples prestação mensal, mas sim o conjunto desta com o acompanhamento. Naturalmente que existirão casos que fogem à regra, nomeadamente, de beneficiários qualificados, mas que têm um emprego mal remunerado e em que não se identificam quaisquer outros indicadores de risco social, para além da insuficiência de rendimentos. Nestes casos, não haverá grande acompanhamento a fazer. São casos que não deveriam ser enquadrados no RSI, mas talvez noutro tipo de medida. Por exemplo, o Complemento Solidário abrangeu muitos pensionistas que eram beneficiários do RSI e cujo único problema era de rendimentos baixos (embora tenha havido a perversão de muitos que necessitavam de acompanhamento, terem ficado sem o mesmo). Não sei se estarei certo ou errado, mas a percepção que tenho do RSI.

continuando assim... disse...

convite para seguir a história de Alice, lá no
... continuando assim....

já começou !
espero que goste

bj
teresa

S Guadalupe disse...

Muito há para reflectir, discutir e fazer!
Concordo com os dois, obviamente, mas ando muito pessimista. Só mesmo mudar estruturalmente para que possamos avançar noutro plano de noutras possibilidades de intervenção.

A sociedade da incerteza e do risco...

Manuel Moringa disse...

Todos devemos comprometermo-nos com "algo" da comunidade. Senão, fará sentido falar nisso. Não concordo com a perspectiva indicada pela sua aluna embora reconheça que é uma forma de analisar e reflectir. Devemos ter medo dos contratos?! Mas não estamos todos os dias a celebrá-los?! Isso deve ser encarado como normal numa sociedade. No contrato todos devemos esforçar-nos por cumpri-los. O argumento de que os poderosos teriam dificuladades de ter estratégias nas mesmas circunstâncias ou noutras, isso é normal também são pessoas. Apenas têm mais meios ( educação, formação, profissão relacionamentos sociais, mais dinheiro).
O RSI também não é a panaceia para a mudança social.Está a ser divulgado que a mudança de estrato social é muito dificil em Portugal.Já nem a formação é um trunfo.
Sem querer magoar ninguém, pergunto: E a consciencialização dos beneficiários do RSI? E "cadê" das formas de os motivar e mobilizar como força social? Estarão alguns impedidos de reflectir na sua condição? Temos que aceitar o discurso da vitimização? Temos que olhar para eles e, eles olharem para a sua condição como recebedores. Não podem dar ou fazer nada em troca?
Claro que é dificilimo mudar o sistema, mas se começassemos a tomar consciência que também os pobres são cidadãos, votam e tem que fazer ouvir a sua voz. O que fazemos nós com ELES e Connosco? Receitamos subsídios e RSI? Eles apenas querem a receita?
Muitas perguntas, sem dúvida.Mas não há respostas sem perguntas.
Peço desculpa se me alonguei, nesta "sua casa."

S Guadalupe disse...

Manuel, alongue-se o que quiser, pois foi convidado a isso. Aliás são todos!

Talvez as questões sejam mesmo essas. A de encarar o RSI como um direito de cidadania, para compensar desigualdades estruturais que a sociedade assim organizada não consegue resolver.

Um contrato implica activação, implica responsabilização das partes, implica reconhecer o papel do actor social. Mas a minha questão está sobretudo na segunda parte da frase (que é de um autor e não de um aluno, apesar de retirado de um trabalho deste).

Eu concordo sobretudo com alguns autores que encaram o RSI como uma forma de entrada no sistema de protecção social: não é um fim, mas um meio!
Mas é um meio construído solidariemante... não sou nada adepta de responsabilizar o cidadão pelo seu caminho, quando esse caminho (a montante e a juzante) está minado! E a responsabilidae da sociedade no seu conjunto?! Onde fica?

Neste momento o grande problema é que a ideia da inclusão social prometida através do emprego cai por terra, mesmo para os mais qualificados. Até o podem conseguir, mas o que lhes vem trazer? Insegurança e incerteza para uma enorme franja. Há, onviemente, casos em que há sucesso. Mas o que é sucesso neste contexto? Geralmente é ser um pouco menos pobre, mas continuar a sê-lo.

S Guadalupe disse...

desculpem os erros da redacção rápida...
o que menos se percebe é: "Há, onviemente" quando quero escrever "Há, obviamente"
escrita criativa!
;-)

teardemanhas disse...

parece-me que contratualizar não é errado, o que tem que se considerar são os termos de contratualização. parece-me que nós, como profissionais, temos que ser criativos e consistentes no tipo de contratualizações que fazemos. Contudo a padronização rígida dos termos contratuais do RSI torna-nos a tarefa mais árdua.
Penso, também, que há que ter em conta uma questão que me parece fundamental.. O RSI é um direito, e é um direito instituido. mas não é rendimento ad eternum... nem é rendimento considerado como substitutivo do rendimento do trabalho... é provisório, e serve para assegurar a supressão de algumas necessidades básicas... torna-se necessário que trabalhemos com as pessoas numa perspectiva de contornar o ciclo... não é fácil... nas palavras de um professor meu "em serviço social não há receitas"..

fica a deixa...

Lila* disse...

Ola!
Espero que nao se importe, mas roubei esta citaçao para o meu blog!Temos um blog com 4 educadoras sociais e como ja trab com benefeciarios do rsi, achei interessante esta citaçao!Se quiser q retiremnos, é so avisar!

S Guadalupe disse...

Está à vontade Lila. A citação não é minha, apenas o são os comentários...