5.12.11

crédula defraudada

Gilbert Garcin,
La précarité, d'après Robert Motherwell,
2005

Sempre vi e paguei os impostos acreditando que a redistribuição dos rendimentos é o mecanismo mais justo para uma vida em sociedade que procura o bem-estar pela coesão social.

Apesar da carga fiscal ser elevada e excessiva relativamente ao rendimento, no nosso país, e de apercebermo-nos frequentemente do seu mau uso, a legitimidade que confiro ao seu fim é de tal nobreza que tal pensamento me ajuda a pacificar os finais do mês. Este mês fiquei particularmente triste, muito triste. Os impostos que pagamos são cada vez menos para favorecer uma sociedade justa e para favorecer o acesso geral a serviços de bem-estar e cada vez mais para favorecer aqueles, que são tão poucos e tanto poder concentram, que defendem à boca cheia que o estado social é um desperdício insustentável e que enriquecem na mesma medida em que todos nós, aqueles que os animam, empobrecemos.

Ingenuamente temos de perguntar se é isto, tão simplesmente, que queremos. Nós, os 99%. Triste por perceber que não percebemos o poder que temos. Triste por sentir que nos sentimos demasiadamente esmagados e amarrados aos ditames de quem nos vê como migalhas. Triste por me sentir defraudada. Triste, enfim. 

Pode ser que, quem sabe, me passe a tristeza entretanto. Recuso-me a deixar de pensar assim, de forma simples e até algo ingénua, e de deixar de ser crédula. E vocês?

3 comentários:

Duarte disse...

Também mantenho alguma esperança e como assistentes sociais que somos temos uma responsabilidade acrescida de não sermos os primeiros a baixar os braços...

IF disse...

Caros colegas

Partilho, também, das mesmas inquietações.
Mas, o facto é que só tenho visto e ouvido economistas, gestores, engenheiros a falar do estado das coisas.
Assistentes Sociais, nem vê-los, nunca dizemos nada, refiro-me obviamente, numa esfera mais pública.

Duarte disse...

Junte a esses sociólogos e psicólogos. Frequentemente aparecem a emitir opiniões e assim vão habituando os media a se lembrarem deles quando necessitam de abordar certos temas, até mesmo da área social. Nós, a classe que mais intervém nesta área, somos a que é menos ouvida. Mas também porque não nos temos interessado muito em sermos ouvidos...