13.11.12

Apontar o dedo às famílias é a via mais fácil


"Governo vai responsabilizar famílias que abandonem idosos em lares ou hospitais"



Esta notícia tem diversas dimensões muito preocupantes.
Pensemos alto: a sociedade que todos ajudamos a construir tem permitido criar condições de conciliação da vida familiar com o cuidado às gerações mais velhas? Eu responderia um redondo "não!".

Andamos todos a tentar encontrar culpados, a apontar o dedo, a expiar a culpa. A "família", esse sistema a que nunca apertámos a mão porque é uma construção emergente da interacção dos seus membros, tem sido um amplo saco de pancada, um alvo para apontar o dedo. E que apoia a família a apoiar? Devemos preocupar-nos em apontar o dedo ou em encontrar soluções? Guy Ausloos chamou-me a atenção para que a palavra CULPABILIDADE encerrava em si um conceito bem mais interessante do que o de CULPA... a (H)ABILIDADE. Estaremos dispostos a potenciar as nossa habilidades para encontrar soluções?

Num contexto social onde as pessoas têm direito a 15 dias por ano para cuidar dos seus doentes/dependentes, o que é uma "fartura" sobretudo quando o nível de dependência é elevado. Onde as pessoas são penalizadas fortemente se optarem por trabalhar a meio tempo ou por se reformarem antes dos 65 anos, opção ora suspensa... Onde as respostas sociais são provavelmente cada vez menos acessíveis face ao rendimento disponível das famílias. Onde apenas uma medida, que tenho de aplaudir, foi tomada neste sentido, embora  ainda não esteja devidamente consolidada a nível nacional, refiro-me ao internamento por exaustão familiar da RNCCI. Afinal quem são os culpados?

Fiz recentemente um estudo com uma aluna e uma colega (http://www.aps.pt/vii_congresso/papers/finais/PAP1067_ed.pdf) onde se percebeu que os adultos de hoje, se confrontados com a necessidade de cuidar dos seus pais, respondem, numa maioria esmagadora, que gostariam de cuidar deles informalmente. Mas será isto possível? Haverá condições para que possam cuidar? Se pensarmos que aos 65 anos, as suas mães terão 92 anos em média, idade que ultrapassa largamente a esperança média de vida, quando estivermos mais disponíveis para cuidar, já não existem as pessoas que gostaríamos de cuidar. Afinal, onde está o encontro geracional de que tanto falamos?

Depois há outra questão raramente referida. Quando há recusa no cuidar ou na comparticipação de uma resposta social por parte de um filho... alguém já pensou na história que pode estar por detrás de uma destas decisões? Alguém já pensou que na base de um corte relacional pode haver muita informação que não se pretende partilhar? Alguém já pensou que não tem direito a apontar o dedo sem compreender as razões? Alguém terá direito a impor o apoio, supostamente recíproco, a um(a) filho(a) que foi antes maltratado, negligenciado ou abandonado, por exemplo?

Claro que também há famílias onde os maus tratos existem. Não recuso esta realidade. Essas famílias têm de ser responsabilizadas e acompanhadas. Mas será este o problema de fundo? Não haverá outros?

Talvez seja mais fácil apontar o dedo e seguir em frente, como se os problemas ficassem resolvidos.
Ou os problemas que se pretendem resolver são outros? Os das instituições que assim passarão a ver comparticipadas ou pagas as camas ocupadas... São estes os problemas a resolver? São estas as nossas prioridades?

12 comentários:

Duarte disse...

E para além da probelmática em si, há a questão do trabalho que o governo quererá fazer. Para começar, querem (e bem) compreender o problema. Pois bem, quem melhor conhece (e de longe) esta realidade, é o Serviço Social hospitalar. O governo não pensou em solicitar um interlucotor que representasse este sector (poderia fazê-lo junto da APSS), mas pensou nas organizações do sector social, e em sociólogos (??) - que eu saiba nunca trabalharam em hospitais - e em médicos, juristas e sei lá que mais. Como se pode ignorar o grupo profissional que é quem conhece de facto este problema? É por esses que qualquer governo tem de começar na fase de estudo do problema. Na fase de desenho de estratégias, obviamente terá de alargar os interluctores, mas o Serviço Social hospitalar terá sempre de estar envolvido. Temos tido inclusivamente representantes em unidades de missão e outros grupos de trabalho (pr ex. nos cuidados continuados, incluíndo os de saúde mental), logo já há quem tenha experiência neste tipo de função. Mas tudo isto só se entende pelo enorme desconhecimento de quem nos governa em relação a esta e outras realidades, em particular de tudo o que tenha a ver com o trabalho dos assistentes sociais. Não pensar no Serviço Social da saúde, no estudo deste problema é sintomático disso mesmo. Penso até que esta situação devia ser posta ao conhecimento de todos os Serviços Sociais dos hospitais para que todos se pronunciasse. Há que tomar uma posição e há que começar a falar mais, pois só pode ser ouvido quem abre a boca...

S Guadalupe disse...

Preocupa-me, e MUITO, uma vez mais, a classe profissional não ser ouvida nem achada quando se anuncia a tomada de medidas desta natureza.

E nesse sentido concordo totalmente com o A. Duarte. Já o reafirmei diversas vezes.

Mas tenho também outras preocupações de fundo...
Nunca percebi a leitura unívoca das notícias sazonais de abandono de idosos nos hospitais. Nunca percebi a defesa de "comissões de proteção de idosos", pois estes adultos de idade mais avançada estão longe de ser um grupo homogéneo com necessidades de proteção homogéneas. Claro que se falarmos em "pessoas dependentes", a coisa muda de figura. Mas aqui a abrangência é bem maior...

E depois preocupa-me se estaremos nós a legitimar mais os interesses institucionais do que os das pessoas?

Viriato Cale disse...

"Governo vai responsabilizar famílias que abandonem idosos em lares ou hospitais"
Do meu ponto de vista, a frase tem uma marca justicialista para intimidar as famílias que não pagam as despesas do internamento nos lares (ipss-igreja) ou os "abandonam"? nos hospitais que depois pressiona os lares para os receberem. Esta gente não gosta de ser pressionada com as suas próprias armas.
As ipss têm já muitos lugares vagos em lares e centros de dia e estão a entrar em crise. Por outro lado é provável que tenham dívidas que não conseguem cobrar.
Os velhos são, ou foram um bom negócio.
Sobre a proteção dos velhos, todos sabemos quais são os fatores e condicionantes socais e científicas aqui presentes.
Sobre este assunto relembro:
http://www.amazon.com/Understanding-Family-Care-Multi-Dimensional-Caring/dp/0335195733.
Fora da questão científica, a periodicidade das notícias está, na minha opinião, ligada a um "businanço" para os jornalistas produzido por rostos de um negócio mascarado, muitas vezes, de solidariedade.
Fui algumas vezes contactado para "falar" do alegado abandono dos velhos para alguns jornalistas em determinadas épocas do ano. Quando começo por afirmar que é preciso ter prudência sobre a avaliação desse “fenómeno”, porque tenho dúvidas sobre a sua verdadeira natureza e que a relação social entre os velhos e os seus familiares é mais complexa e que não pode ser contida num palavrão "abandono", a coisa morre logo aí e não dá notícia. Contudo, há sempre alguém que domina(!?) o tema e discorre sobre o assunto fazendo o jogo do predador social. Misérias da comunicação social e de algumas A S que vão para o "palco" sem olharem para todos os lados.
A APSS ou a pró-ordem poderiam desmitificar a coisa, acho eu na comunicação social.

Viriato Cale disse...

Sr. Dr Duarte,
O S S hospitalar muitas vezes só entorna o caldo na coisa. Faz o jogo do predador social de forma ingénua ou para se ver livre do velho ou da velha.
Sei que a sua ideia é razoável mas está longe de ser verdadeira.
Há muitos S S hospitalares e há muitos hospitais, compreende?
Cientificamente o que produzirem e que poderes afrontaram por essa via?
Sei que há alguns temas sobre velhos analisados por AS e isso é muitissimo positivo.

Viriato Cale disse...

Sr. Dr Duarte,
O S S hospitalar muitas vezes só entorna o caldo na coisa. Faz o jogo do predador social de forma ingénua ou para se ver livre do velho ou da velha.
Sei que a sua ideia é razoável mas está longe de ser verdadeira.
Há muitos S S hospitalares e há muitos hospitais, compreende?
Cientificamente o que produzirem e que poderes afrontaram por essa via?
Sei que há alguns temas sobre velhos analisados por AS e isso é muitissimo positivo.

Duarte disse...

Caro Viriato Cale, mas não pode partir de um princípio generalista de que nem falamos com o SS hospitalar porque há alguns A.S. que são assim e assado. Conheço bem essa realidade, mas não podemos confundir a árvore com a floresta e partir do princípio de que ninguém se aproveita. Esse raciocínio é que não tem cientificidade nenhuma. Então e os outros (supostos/prováveis) interlocutores de que se fala? Esses são todos bem intencionados e credíveis? Quando nenhum deles tema experiência do trabalho social do lado hospitalar? Creio que não está a analisar a questão de forma correcta. Não incluir o contributo do SS da saúde na análise desta problemática, bem como, no desenho de eventuais soluções é um erro de palmatória.

Irene Ferreira disse...

Email remetido à RTP
Encontrava-me a ver o Jornal das 9h, da RTP Informação, no dia 17-11-2012, tendo sido convidado para comentar a notícia "Governo vai responsabilizar famílias que abandonem idosos em lares ou hospitais", o sociólogo Manuel Vila verde.

Contudo, considero que Joaquina Madeira, presidente da Estrutura de coordenação do Ano Europeu do Envelhecimento Activo, deveria também ser convidada para expor a sua opinião sobre esta matéria.

S Guadalupe disse...

Eu fico curiosa em saber se alguém, afinal, terá dados concretos sobre isto... que não creio que existam...

Duarte disse...

Duvido, pois que tenha conhecimento o Serviço Social das diversas unidades de saúde não foi contactado por ninguém, por isso se fizeram algum estudo, não sei a que fontes foram beber. De qualquer forma, em relação a este tema, há-que separar as águas: uma coisa são as situações em que existe negligência familiar por desinteresse manifesto; outra coisa é quando estamos perante dificuldades de suporte familiar e de insuficiência de respostas para fazer face a essas situações. Há vários aspectos a melhorar: o planeamento das altas; as respostas sociais na comunidade; os mecanismos jurídicos para fazer face aos casos de negligência e desinteresse manifestos. São 3 situações diferentes e que exigem níveis de resposta diferentes. Na primeira há muito a melhorar. Os planeamentos de alta ainda falham muito nos internamentos hospitalares por ausência de cultura de planeamento por parte de muitos profissionais e de trabalho multidisciplinar, mas também por insuficiência de recursos humanos. Faltam médicos e assistentes sociais na generalidade dos hospitais. No âmbito da RNCCI em que se preconiza todo um processo de referenciação electrónica em que cada situação tem que ser avaliada por médico, enfermeiro e assistente social, o que se nota é que ainda subsistem muitas falhas, pois este processo exige que se trabalhe de facto o planeamento de uma alta, sobretudo, para o domicílio. Criaram-se até as EGAs (Equipas de gestão de altas), mas estas deparam-se com muitas dificuldades de articulação com os internamentos. Mas se não houver bons planeamentos de alta, as famílias acabam por não ser devidamente trabalhadas num sentido de reintegração dos doentes no domicílio. Esta é para mim uma questão chave e que está na base de muitos conflitos utente/família vs hospitais. A título de exemplo, temos casos de altas comunicadas no próprio dia, e nalguns casos nas Sextas-feiras ao final do dia... Depois, quando não existem recursos suficientes na comunidade (serviços domiciliários, unidades de CCI, centros de dia, centros de noite, equipas especializadas nos centros de saúde, onde faltam profissionais, em que ainda existem centros de saúde em assistente social, entre outros), torna-se muito difícil viabilizar determinadas altas sem recorrer ao seu protelamento. Há também que ter em conta que a esta problemática estará cada vez mais associado o fenónomeno do envelhecimento da população em que tenderemos a ter cada vez mais idosos e idosos isolados, o que colocará uma pressão cada vez maior junto das instituições, a começar nos hospitais. Por último, nos casos de nengligência manifesta, em que sabemos que uma família teria condições para solucionar o problema do seu familiar, mas há uma total desresponsabilização, há de facto que criar mecanismos legais para facilitar a resolução destes problemas. Como? Não sei, mas é uma situação que deverá ser estudada com muito cuidado. De qualquer das formas, todas estas situações passarão sempre pela avaliação social caso-a-caso que é feita diariamente pelos Serviço Social dos hospitais, a qual deverá, no entanto, ter parâmetros claros no diagnóstico das situações.

Duarte disse...

Olá Sónia, a APSS chegou a desencadear alguma coisa na sequência desta situação? (Já agora e só a talho de foice, agora toda a gente fala dos lares ilegais, mas daqui a uns dias já todos se esqueceram e continuará tudo igual).

Pedro Lopes disse...

Boa noite, car@s colegas,

este assunto (da responsabilização das famílias por abandonarem os seus familiares idosos nos hospitais) e o respeito pela vontade do idoso e as várias problemáticas que atingem a velhice, parece-me que deveria dar lugar a uma intensa discussão no interior da nossa classe, pois muitos de nós trabalham em estruturas públicas que terão de lidar com questões de cumprimento do dever profissional para com a entidade patronal e por consequência obrigados a respeitar a Legislação em vigor. Surgirão problemas éticos e deontológicos, e poderá afetar, de forma grave, a imagem dos colegas que lidam com estas problemáticas da velhice.

Nunca - e ainda bem - pensaremos todos da mesma forma, mas creio que as questões éticas e deontológicas com que nos deparamos no quotidiano profissional, devem ter uma padronização de posição e resposta. Ou seja, temos de ter instrumentos legais para nos podermos "segurar" quando temos de tomar determinada posição contrária à obrigação para com a entidade patronal, mas para salvaguardar o interesse e bem-estar de determinado indivíduo ou família.

Abraços

Petrissiane - Assist. Social do C.T. de Tamoios disse...

No Brasil o abandono é as ruas, na própria casa mesmo. Há poucas, na verdade não conheço nenhuma instituição públicas, existem as não governamentais que passam por muitos problemas. Parece que como aqui, o profissional que lida com as questões sociais também é ignorado, e como quem trata disso fosse apenas político.